O Brasil não pode ser quintal de agrotóxicos banidos, diz médica que trata câncer infantil

Oncologista pediátrica e fundadora de um dos maiores hospitais especializados em câncer infantil no país – o Instituto Boldrini, em Campinas (SP) – a médica Silvia Brandalise abriu um Seminário sobre Agrotóxicos nos Alimentos, na Água e na Saúde do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).

Engajada e ativista, ela inaugurou no ano passado o maior centro de pesquisa oncológica infantil da América Latina e tem feito da luta pelo controle dos agrotóxicos no Brasil uma bandeira.

Em entrevista exclusiva à NSC, a médica falou sobre a relação entre os defensivos agrícolas e o câncer nas crianças, comenta a legislação brasileira e alerta para a necessidade de controle.

Entrevista: Silvia Brandalise

A senhora trabalha com câncer infantil, e abriu o encontro do Ministério Publico de SC sobre a interação entre agrotóxicos e saúde. Qual é essa relação?

A exposição de qualquer ser vivo, principalmente a criança, que está em franca etapa de crescimento, provoca dano no DNA, nos cromossomos. Precisa ser reparado, algumas vezes (o organismo) não consegue, e vira um câncer. Um aspecto importante na criança é que ela já sofre esse dano no momento da concepção. O espermatozoide do pai já pode vir danificado por exposição a inseticidas, e será transmitido para a criança, gerando as mutações genéticas que vão resultar em câncer ou malformação congênita. Quanto mais cedo ocorre essa mutação, nos primeiros meses, semanas de vida, a relação é muito mais estreita com malformação congênita. Depois do segundo, terceiro mês, (mais) relacionado com o câncer na criança.

Essas mutações a que a senhora se refere, e os casos de câncer, têm aumentado?

Esse dado é inquestionável nos EUA e na União Europeia. O aumento do câncer da criança é uma linha ascendente e contínua, entendendo-se crianças até 19 anos de idade. Desses cânceres, o tumor cerebral é o que tem um grande impacto. Mas no adolescente, até 29, 30 anos, também existe um aumento crescente de tumores de testículo e endócrinos.

De que maneira ocorre essa exposição aos agrotóxicos?

Já tem se provado, com dois grandes trabalhos na Europa, na Dinamarca e na Itália, durante um período de 40 anos de observação, que é a exposição do pai em seu ambiente de trabalho, da mãe, durante a gestação e após o nascimento da criança. O aspecto fundamental desses estudos europeus, publicados agora em 2019, é que a exposição do pai ou da mãe no período pré-concepção e durante a gestação, (provoca) altos índices relacionados com o aparecimento de câncer no sistema nervoso e leucemia mieloide.

Médica Silvia Brandalise

São pessoas que trabalham diretamente com defensivos agrícolas?

Não, pegaram uma população que sabidamente tinha uma relação com a indústria de tintas e gráficas. Pegaram esses dois modelos para uniformizar. Não trabalhavam em lavouras. Na Itália, pegaram no país inteiro 22 regiões que se caracterizavam por alto nível de contaminação ambiental por indústrias. O que observaram foi uma maior incidência de tumor cerebral e leucemia mieloide aguda. Ou seja, não tem nenhuma dúvida de que a exposição, quer em ambiente de trabalho, quer em ambientes contaminados pela indústria, com metais pesados, derivados de benzeno e outros resíduos químicos, está relacionada não só com o câncer da criança e do adolescente, como também com distúrbio neurológico, autismo, déficit de aprendizado nos primeiros anos de vida. E, não menos importante, são também esses poluentes e contaminantes ambientais relacionados a distúrbios endócrinos, como obesidade, infertilidade. Ou seja, a natureza é para ser respeitada. O lençol freático vai levar aos nossos alimentos e à nossa água todos esses contaminantes.

A senhora citou os estudos feitos na Europa, mas sabe-se que eles têm uma legislação muito mais restritiva que a nossa. O que isso significa para o Brasil?

O alerta é que nós brasileiros não somos diferentes dos europeus e dos americanos. Devemos aprender o que se mostrou tóxico e proibitivo nesses países, e deve ser banido. O Brasil não pode ser quintal de produtos proibidos. O Brasil importa inseticidas já sabidamente banidos na União Europeia e nos Estados Unidos. A gente vê portarias, legislações frouxas, que permitem entrar no Brasil qualquer coisa. Neste primeiro trimestre de 2019 (tivemos) 1,23 registro de novo inseticida por dia. É catastrófico. A política da segurança ambiental deve ser baseada no princípio da precaução. Não se pode jogar neste país produtos já proibidos, sabidamente publicados como carcinogênicos. É extremamente sério.

Esses níveis de contaminação podem vir da alimentação?

Somos o que a gente come, bebe, respira. Todo contaminante vem do ar, do alimento, da água.

O MPSC divulgou um estudo mostrando que há traços de agrotóxicos na água consumida por 22 cidades catarinenses. Os níveis não ultrapassam os limites do Ministério da Saúde. Essa exposição preocupa?

Do ponto de vista de níveis aceitáveis, o Brasil tem níveis em média 5 mil, 3 mil vezes maior do que Europa e EUA. Será que o brasileiro tolera mais veneno que o europeu? A exposição crônica tem efeitos cumulativos. Veneno é veneno em qualquer época da vida, e não podemos aceitar em qualquer quantidade.

O Centro Infantil Boldrini participa de estudos internacionais sobre as relações entre o câncer e os agrotóxicos. Já há algum resultado preliminar?

Fomos convidados a integrar um grupo internacional chamado Consórcio Internacional do Câncer da Criança, com parceria da Organização Mundial da Saúde, da Agência Internacional de Câncer, da França, e é coordenado por um grupo da Austrália. Vamos juntar nesse estudo 1 milhão de gestantes e um milhão de nenéns. O Brasil é representado por Campinas. As gestantes são submetidas a dois questionários internacionalmente validados durante a gravidez, e mais dois depois do nascimento da criança, com coletas de sangue da mãe e da criança, e acompanhamento pelo período de 18 anos para ver quantos desenvolvem malformação, câncer, quantos terão aplasia de medula, leucopenias. No final de 2018, início de 2019, saiu a publicação inicial desse estudo. O resultado começa a apontar para grupos parciais, da França e da Inglaterra, a questão da exposição a derivados de benzeno. Já estamos nesse estudo há seis, sete anos. Dar um diagnóstico de câncer numa criança é um sofrimento atroz. O tratamento é duro, prolongado, e o que causa bastante pesar é saber que talvez seja o preço que as crianças estão pagando pela contaminação ambiental . Nossa sociedade, as entidades científicas, os órgãos públicos, deveríamos ter como princípio maior o respeito à vida, o respeito à saúde da criança. Nada, nenhum dinheiro, nenhum lucro justifica matarmos as crianças com esses matadores invisíveis, com inseticidas e poluentes.

Fonte: NSC

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