Conheça Lilly, a ‘Greta Thunberg da Tailândia’ que declarou guerra ao plástico

“Sou uma garota em guerra”, diz Ralyn Satidtanasarn, de 12 anos, referindo-se a sua luta para acabar com o plástico na Tailândia, inspirada pela jovem ambientalista sueca Greta Thunberg. Matando aula para navegar num canal poluído de Bangkok em um pranchão de stand-up paddle, Lilly vai pescando lixo em sua missão de limpar seu país, onde a população usa, em média, oito sacolas plásticas por dia — cerca de 3 mil por ano, de acordo com dados do governo. A média é 12 vezes maior do que a da União Europeia.

Em junho, a adolescente de dupla nacionalidade — americana e tailandesa — conquistou sua primeira vitória: ajudou a convencer uma grande cadeia de supermercados, chamada Central, a não distribuir mais sacolas plásticas de uso único em suas lojas.

Outras redes varejistas estabelecidas na Tailândia, incluindo a 7-Eleven, têm seguido a tendência e se comprometido a não distribuir sacolas descartáveis a partir de janeiro de 2020.

— Deve ser assim — diz Ralyn, conhecida como Lilly, enquanto se aproxima de uma bolsa cheia de latas enferrujadas e garrafas quebradas. — No começo, pensei que era jovem demais para militar, mas Greta (Thunberg) me deu confiança. Quando os adultos não fazem nada, as crianças precisam agir — acrescenta.

Lilly não estará em Nova York com a jovem sueca, um ícone da luta contra o aquecimento global, na manifestação que acontecerá antes da conferência climática da Organização das Nações Unidas na próxima sexta-feira, dia 20. Mas ela irá se manifestar em Bangkok.

— Meu lugar é aqui. A luta deve ser travada no sudeste da Ásia — avalia a jovem.

Vários países da região — como Tailândia, Camboja, Filipinas, Malásia e Indonésia — recentemente se recusaram a continuar recebendo lixo de países de primeiro mundo.

Estas nações do sudeste asiático enviaram contêineres cheios de plástico para reciclar em seus países de origem, mostrando que não serão mais “depósitos de lixo” do Ocidente. Em contrapartida, continuam gerando quantidades astronômicas de plástico em seu próprio território.

Tailândia como um dos maiores poluidor dos mares –  Na Tailândia, os sacos plásticos estão em todos os lugares, e são usados tanto para embalar comidas prontas como para as pessoas carregarem seus próprios alimentos para o trabalho.

A recente morte de um bebê dugongo — uma espécie de mamífero marinho ameaçada — que engoliu muito lixo plástico tem circulado nas redes sociais. A Tailândia é o sexto país no mundo que mais contribui para a poluição oceânica, segundo o Greenpeace.

Ralyn Satidtanasarn rema para coletar resíduos de plástico em um canal de Bangkok. Foto: SOPHIE DEVILLER / AFP

As autoridades tailandesas querem acabar com a sacola descartável até 2022, de acordo com um ambicioso roteiro elaborado no início deste ano. Mas alguns duvidam de sua eficácia.

— Nenhum mecanismo legal está planejado, e aumentar somente a conscientização do público não será suficiente — diz Tara Buakamsri, diretora local do Greenpeace.

Na mesma linha do movimento iniciado por Greta Thunberg, Lilly organizou uma manifestação pacífica em frente à sede do governo tailandês. Ela também solicitou uma entrevista com o primeiro-ministro, Prayut Chan-O-Cha, mas não teve êxito. A jovem tem o apoio de sua mãe, que a ajuda a escrever seus discursos para funcionários ou embaixadas da ONU.

— No começo, eu pensei que era simplesmente um capricho de garota, mas ela não desiste de seus esforços, diz a mãe, Sasie, que também foi uma militante ambientalista.

Lobistas poderosos

Lilly começou a militar aos oito anos, depois de passar as férias em uma praia na Tailândia “coberta de plástico”. Desde então, embora às vezes queira parar para brincar, Lilly participa das sessões de limpeza organizadas pela associação Trash Hero.

A última ocorreu em Bang Krachao, um bairro conhecido como “pulmão verde de Bangkok”, mas que está cheio de garrafas, sacolas e outros resíduos plásticos que as águas do rio Chao Praya arrastam para lá.

Muitos acreditam na força da convicção desse jovem adolescente, mas na Tailândia “os grupos de pressão são poderosos e isso dificulta as mudança”, diz Nattapong Nithiuthai, militante ambientalista. Um dos maiores obstáculos é o setor petroquímico, muito focado no plástico, que representa 5% do PIB tailandês e gera dezenas de milhares de empregos.

Fonte: Globo

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