Mudanças de hábitos: conceitos que vão além da dieta alimentar

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Uma das principais causas do aquecimento global, da poluição de rios e dos mares, da destruição de ecossistemas é a produção e o consumo de carne. A maior parte das pessoas não quer sacrificar o prazer pela ética.

Porém, somos cada vez mais informados e devemos perceber que não é possível continuarmos a contribuir para algo que está errado. Nunca é humano matar um animal.

Conheça histórias de adolescentes que se tornaram vegetarianos e adotaram conceitos que vão além da dieta alimentar.

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O primeiro produto de origem animal que Bárbara Costa – então com 16 anos – retirou do seu cardápio foi o leite.

“A gente pensa que as vaquinhas estão exatamente como no pacote de leite: felizes e a pastar, mas a realidade é que estão presas num espaço de quatro metros quadrados, o leite é tirado à máquina, fere as tetas e faz com que passe sangue para o leite. Fez-me muita confusão saber que o bebê é retirado exatamente no mesmo dia em que nasce e ver a vaca e o bebê serem separados é triste. Estamos a roubar o leite dos bezerros para nós”, acusa a adolescente portuguesa de 17 anos.

Convicta, Bárbara é vegetariana – não come carne nem peixe (e, por acréscimo, ovos, leite e mel) – mas espera em breve tornar-se vegana, um conceito que vai além da dieta alimentar e se assume mais como um estilo de vida.

“Os veganos não comem e não usam nada de origem animal – como a lã, seda ou pele – nem testado em animais; não vão a circos, rodeios, jardins zoológicos”, explica a jovem.

Cowspiracy : The Sustainability Secret

O discurso de Bárbara não é único. Cada vez mais adolescentes têm adotado dietas vegetarianas, a maioria incentivada pelo documentário “Cowspiracy – The Sustainability Secret“, sobre a pegada ecológica causada pela agricultura animal, que em 2014 invadiu as redes sociais mais acessadas pelos adolescentes.

“Foi o documentário que fez o clique comigo e que tornou o João Manzarra – apresentador da emissora portuguesa SIC – vegano”, afirma, satisfeita, Bárbara, filha de um taxista e uma empregada doméstica.

“Os meus pais ouvem-me bastante, mas coitados dos animais que estão no prato deles. Quando eles estão a comer bife eu tento não o ver como um animal, mas como um produto que está na mesa, é o que toda a gente faz quando o come, porque se fizessem a conexão não o comiam. Tento convertê-los, mas cada pessoa tem o seu tempo.”

Não é só em casa que a jovem que balança entre fazer do ativismo profissão ou ingressa na carreira jurídica, tenta mudar os hábitos alimentares.

“Pedi à minha escola para ter uma ementa vegetariana mas disseram-me que o Ministério da Educação recusou.”

Foi também por esse motivo, mas no Sul do País, que nasceu o projeto “Lancheira Vegan”’, um blogue criado pela também adolescente Inês Ferro onde publica as receitas (vegetarianas) que leva na marmita para a escola. É ela que as cozinha à noite, misturando ingredientes e inventando pratos que fazem sucesso entre os pares.

“Tinha 15 anos quando, numa aula de Filosofia, estávamos a falar sobre direitos humanos, racismo, holocausto e fiquei a pensar porque é que temos direitos. Cheguei à conclusão que o que nos faz humanos talvez seja termos consciência de nós e dos outros, mas os animais `não-humanos´ também possuem estas características, logo, merecem os mesmos direitos”, começa por explicar quem nunca até então tinha ouvido falar de veganismo.

“Fiquei a pensar nisto e houve um dia em que estava a comer um bife com batatas fritas, olho para o bife e dá-se um clique na minha cabeça: ‘epá, eu estou a comer um animal’ como se isso fosse uma novidade; mas desta vez a palavra animal bateu-me cá dentro e desde aí nunca mais consumi qualquer produto vindo deles”.

No Facebook, à época das comemorações natalinas, a mensagem de Inês não podia ir mais ao encontro das suas convicções: “Luto por todos os animais que morreram para celebrar a vida, a paz e o amor.”

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Direito à vida

Madalena Cruz retirou há dois anos a carne do menu. Só não aboliu o peixe do prato porque uma anemia grave a impede de se privar de determinados nutrientes.

“Já não gostava do sabor da carne, mas quando vi documentários sobre a criação de animais deu-se o clique. Vi os pintinhos e ao bico deles é feita uma operação para achatá-los. Eles vivem em constante sofrimento porque têm uma dor crônica; vi matarem leitões batendo com eles no chão. Vi galinhas que estão em constante estresse porque vivem num espaço muito pequenino para engordarem, não se mexerem e não se bicarem. É mesmo desumano e acho que se fosse ao contrário os humanos não gostariam de ser tratados assim, acabando de nascer e tendo cortado-lhe um membro, vivendo constantemente com dor”, acredita a adolescente.

“Metem-se os ovos todos a eclodir ao mesmo tempo, tabuleiros e tabuleiros de ovos. Os machos morrem logo nesse dia porque não trazem qualquer benefício para a indústria dos ovos e por isso ou caem todos para uma espécie de triturador gigante e são triturados todos os pintinhos ou caem para um saco de plástico enorme onde morrem asfixiados”, critica também Bárbara Costa.

“Os animais têm tanto direito à vida como nós e existe uma discriminação entre eles: temos cães e gatos, que cá em Portugal não são alimento, e depois temos animais como vacas, porcos e galinhas, que eu considero animais iguais e por isso não devem servir para comer”, admite Guilherme Freitas, vegetariano há cinco meses.

“Quando as pessoas no início se tornam vegetarianas parece que temos uma grande raiva dentro de nós, mas depois volta a questão: ‘Como é que eu vou ajudar os animais?’ Não é chegar para as pessoas dizendo ‘vocês estão comendo animais, isto é um grande genocídio’ que vou conseguir, porque as pessoas ficam fechadas e eu não quero impingir nada a ninguém”, conta a autora do Lancheira Vegan.

“Não me arrependo [da minha decisão de ser vegetariana] porque não tenho aquele sentimento de culpa terrível que tinha quando comia animais”, assume Carolina Canaverde, de 16 anos, que evita olhar para o prato de quem come carne ou peixe.

“A maior parte das pessoas não quer sacrificar o prazer pela ética. Acusam-me sempre de estar na defensiva, o que acontece pelo fato de ser um assunto bastante significativo para mim”.

“Na verdade, estamos mais virados para as questões éticas do que as gerações anteriores”, acrescenta Inês.

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Baseado na matéria “Correram com a Carne”, de Marta Martins Silva, do Correio da Manhã

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